segunda-feira, 11 de julho de 2011

Dos Cravos e Dos "Cravas"


Há 35 anos atrás
Numa telefonia ranhosa
Uma canção proibida
E a tropa revoltosa

Clamavam por alto valor
Bem adentro da cidade
Proclamavam com fervor
Que iria haver Liberdade…

35 anos passaram
Em puro descontentamento
Foi só p’ra as contas de alguns
Que houve desenvolvimento

Ministros e directores
Deputados e presidentes
Numa dança se seguiram
Entre duas cores diferentes

Como gaiatos da escola
Que se desculpam em vão
Uns aos outros eles se culpam
Do estado da nação

(Não me venham com cantigas
Em ano de eleição
Se o povo ‘inda acredita
Este povo é parvalhão!
Mas meu voto eles não levam
Que eu não acredito, não!...)

E hoje, nos tempos que correm,
Ainda que digam o contrário,
É a mesma ditadura
Guardadinha num velho armário

Que com novas vestes se traja
P’ra que não haja suspeita
Autonomia – que a não haja
E o povo ‘inda diz “bem feita!”

Que em plena altura de crise
E o povo em dificuldade,
Que não se una este povo,
Pensando que tem liberdade!

Dê-se ao povo alguma coisa
Que ele pague sem saber
Que não passe da cepa-torta
Que a liberdade seja morta
Que não haja o que comer!

Que o povo se una somente
Quando houver futebol
Ou quando houver bom tempo
E os aglomerados de gente
Se encontrem nas praias ao sol!

Que pensem que sim, que são livres
E se festeje este dia
Com cravos vermelhos, foguetes
E a crise do dia-a-dia!

Santa crise omnipresente!
Com ar despreocupado
Canto a crise docemente
Num canto inacabado…

A culpa nunca pode ser a crise
Num mundo onde não há paz
Não é da crise esta culpa
É sempre de quem a faz!

E quem a faz
São sempre os mesmos
Os das contas recheadas
Que com o povo não se importam
Com nossas vidas malfadadas

Com nossa contrariada obediência
Que nos impõem na mente
Não se iludam, camaradas
O povo está descontente!

Quando há fome verdadeira
E se encurta a finança
E p’ra pagar contas não chega
O ordenado não alcança

O carcanhol necessário
P’ra criar uma criança
O povo desencantado
Deprime-se e perde a esperança…

Liberdade é coisa que não há
Neste país à beira-mar (im)plantado
Onde a crise é que governa
E o TGV desejado

Por megalómana cabeça
Do homenzinho do topo
Ah! Quem me dera ser a brisa
E ele uma leve folha
Que se afasta só com um sopro!

(Lá se ia o TGV mais o homenzinho do topo…)

Mentiras e aldrabices
São especialidade sua
No lugar dele eu teria
Vergonha de ir à rua

Onde o povo me visse
E apupasse
E tomate me atirasse
E ovos podres e tudo

Se eu fosse tal criatura
Guardiã da ditadura
Saía à rua mascarado
E somente no Entrudo!

E os homenzinhos iguais
Criaturas que o estado forja
São homenzinhos que tais,
São corja da mesma corja

Tivessem vergonha eles também!
Se suicidassem em massa
P’ra regressar ao além!

Ah! A vida seria tão bonita!
Aí sim, seria revolução total
Uma revolução sem fim
À escala mundial

Venham cravos vermelhos
E rosas, venham todas as flores!
Venham tsunamis e bombas,
Venham ETs às cores!

Ponham fim a estes senhores
De pensamento tão tosco!
Acabem com esta gente
Antes que acabem connosco!



Aflupina Aloba
(uma grande amiga minha)
2009-04-25

domingo, 10 de julho de 2011

Sobre perda (A Alegria de viver)


                Este pequeno (vá, nada de risadas) texto poderia ter, também, o título de “Falsos Pressupostos. Num país que se presume que mais de metade população saiba ler mas que prefere ver futebol, novelas e reality shows, do que ler um livro, um falso pressuposto seria presumir que o tamanho do texto é argumento. Ainda por cima o futebol poderia ser uma grande evento desportivo e é um mar de corrupção, as novelas são quase sempre mais do mesmo e os reality shows são uma real porcaria E podem perguntar ao Duque de Bragança, a porcaria real dele cheira tão mal como a dos outros e, por incrível que pareça, NÃO É AZUL! Passando à frente.
                Todos nós temos opiniões, todos nós pensamos e reflectimos. De entre as infindáveis profundezas do pensamento humano surgem pressupostos, uma ideia pré-estabelecida sobre um assunto qualquer, sobre alguém, sobre alguma coisa. Um dos mais frequentes “poisos” do falso pressuposto acontece exactamente nas relações interpessoais, e quanto mais próximas, maior a frequência.
                Nas amizades que eu formo e celebro (amigos são a família que nós escolhemos) há normalmente 3 pressupostos que eu assumo, que são:
1.       Que eu posso confiar nos meus amigos e eles podem confiar em mim;
2.       Que, caso alguma questãosurja que possa ser motivo de essa amizade terminar, os meus amigos a debatam comigo e vice-versa;
3.       Que, na eventualidade, de ser erro, acção e/ou omissão minha que me dêem o benefício da dúvida e me permitam dialogar nem que seja uma última vez;
Quando uma amizade acaba sem passar por esses 3 pressupostos eu entendo que amizade nunca existiu e que, em vez disso, existia algum interesse encoberto ou simples falsidade das pessoas. Ora, eu tenho 1001 defeitos e pelo menos outras tantas características de personalidade que não agradam a todos. Mas um desses traços não é ser falso. Sou uma pessoa franca e frontal. Algumas pessoas diriam mesmo que sou insensível e politicamente incorrecto. Neste caso, perder um amigo (ou uma família inteira deles) seria algo que me deixaria de certa forma, feliz, alegre. Dado que sou uma pessoa que prefere a lógica fria e a dedução, ao invés de emoções mal direccionadas, quando isto acontece (e dado que sou comunicativo não é assim tão raro), eu só saio mais fortalecido.
Em questões amorosas sucede exactamente a mesma coisa. Eu quando me apaixono (o que, dado ser um eterno crente no Amor, também é frequente), é a doer. E, se em novo estava preocupado em sair magoado, isso agora não acontece. Dêmos graças por, no nosso cérebro, a lógica ser imperatriz. Eu explico. Se numa amizade existem falsos pressupostos, numa relação amorosa eles são em maior número e infinitamente mais profundos e complexos. Muitas pessoas se queixam que se “entregaram de todo o coração” e “de corpo e alma” e que saíram magoadas e que essas mágoas ficam para sempre, são um veneno nas relações seguintes ou, pior ainda, que impedem relações futuras. Mas que belo e fumegante monte de porcaria que isto é! Eu acho isto tão absurdo como acreditar num deus qualquer e olhar para os 2 lados antes de atravessar a rua. Acontece, em muitas relações, que as duas pessoas (vamos presumir que são duas) não se amam da mesma forma e/ou na mesma quantidade (eu sei bem que o amor não pode ser quantificado, mas se alguém não perceber o que eu quis dizer agradeço que fechem a página e não voltem). As pessoas podem gostar uma da outra mas valorizar coisas diferentes no parceiro. Não vou debater valores nem dar exemplos, se sabemos ler também sabemos pensar. Eu orgulho-me de ter boas relações com a maioria das ex-namoradas (não que tenham sido muitas) e é algo que não é frequente. A maioria das pessoas “sai magoada”, o seu desejo “é não ver” a pessoa nunca mais, etc. Mais uma vez eu acho isso ridículo. A não ser que as pessoas tenham passado por cima da amizade para chegarem (apressados) ao amor e à paixão, não tem qualquer sentido as pessoas se afastarem como inimigos ou estranhos. A existência de falsos pressupostos também dá um ar de sua graça aqui. A maioria das pessoas presume que “Amor é para sempre”. A maioria das pessoas presume que pode existir amor sem amizade. Eu digo, amor sem amizade é como tentar cagar e não mijar! Já tentaram? Então sabem do que falo… Se nunca tentaram tentem! Criam-se falsos pressupostos quando um casal não tem respeito pela outra pessoa, um tipo de respeito que apenas grandes amigos e confidentes podem ter. O respeito pelo próximo para mim é uma simples questão de equilíbrio com a Natureza. Todos os animais têm imenso respeito pelos outros e pelo ecossistema e é algo tão instintivo que, sendo o ser humano, supostamente, a espécie mais complexa e evoluída do planeta, parece-me incrível que tenhamos perdido o respeito uns pelos outros e pelo que nos rodeia. Passamos a vida a julgar os outros e ainda nos achamos merecedores de riqueza e sucesso (rótulos para os quais eu desconheço significado e até mesmo significância). Criam-se falsos pressupostos quando, havendo respeito, falta comunicação. Que raio de vida pode ter um casal que não debate, não discute e até mesmo (porque não?) se irrita com o parceiro? As grandes lições da minha vida surgiram de belos debates, de valentes discussões e por diversas vezes, de coisas que disse e ouvi, ditas na fúria do momento. E para os que ficaram chocados, para que raio se inventou o pedido de desculpa se não foi para admitirmos as nossas próprias falhas? E o perdão teria que propósito então? À mínima questão, à mais insignificante gota de discórdia, desatávamos a atirar bombas para o parceiro? Faz sentido para alguém? Guerra aberta porque ele não baixou o tampo da sanita ou porque ela perdeu duas horas para se arranjar e chegaram atrasados? Acham isto lógico? Debate-se, discute-se e tenta-se encontrar um consenso. Quem sabe a relação não sai fortalecida. Já pensaram nisso? Uma discussão, por muito séria e ríspida que seja e ainda que sejam ditas algumas coisas mal pensadas não é, de modo algum, significado de que o já referido respeito não existe. Eu discuto imenso com toda a gente e não os respeito menos por causa disso. De certa forma eu até admiro quem me faz frente e me faz ver as coisas de outro modo. Passo do respeito solene à admiração numa frase, num argumento bem colocado.
Estou sozinho há quase 3 anos e posso mesmo considerar-me uma pessoa feliz. Nas minhas relações dei tudo de mim e em nenhuma me arrependo de o ter feito. Os fins de namoro deram quase sempre novos frutos de madura e saborosa amizade. Se as pessoas com quem estive, em algum momento, não deram tudo de si não me preocupa. Não presumo que toda a gente seja como eu. Esse seria o maior falso pressuposto de todos! Amor sem mágoa não existe, como não existe prazer sem culpa. Se assim fosse o prazer não seria prazer nenhum e o amor não teria valor. Às pessoas cuja mágoa do amor é eterna e avassaladora: sejam valentes! Ninguém gosta de covardes! E isto eu não presumo, é a realidade!